A captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelos EUA no fim de semana, pouco afetou a confiança dos investidores em criptomoedas, mesmo com a queda dos contratos futuros de petróleo para o menor nível em quatro anos.
Washington afirmou que sua operação no país latino-americano estava ligada a novas acusações dos EUA contra Maduro e seus principais aliados por tráfico de drogas e corrupção.
Autoridades americanas caracterizaram a ação como uma operação policial, com relatos indicando que Maduro deve comparecer pela primeira vez ao tribunal federal de Manhattan nesta segunda-feira (5).
Os contratos futuros de petróleo bruto WTI caíram para US$ 56,6 por barril no sábado, o menor valor desde fevereiro de 2021, enquanto crescem as especulações sobre como os EUA pretendem administrar os vastos recursos do país.
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As ações da Chevron subiram 11%, um movimento que, segundo o site de comentários sobre mercados financeiros Kobeissi Letter, refletia a expectativa de que o controle dos EUA pudesse desbloquear o fornecimento adicional de energia da Venezuela.
Os mercados de criptomoedas permaneceram relativamente estáveis, com o Bitcoin e o Ethereum registrando altas de cerca de 1% cada. A capitalização de mercado de criptomoedas como um todo subiu 2%, para US$ 3,2 trilhões, segundo dados do CoinGecko.
Alguns dizem que o episódio também pode reacender o escrutínio sobre o uso opaco de ativos digitais pela Venezuela em nível estatal.
Empresas de inteligência em blockchain e ex-funcionários alegam há tempos que Caracas acumulou discretamente Bitcoin e stablecoins por meio de transações ligadas a commodities, à medida que as sanções se intensificavam, incluindo vendas de petróleo liquidadas fora do sistema bancário tradicional.
Essas alegações, que a Venezuela nunca reconheceu, sugerem que as criptomoedas funcionaram não apenas como uma tábua de salvação para a população, mas também como uma camada paralela de liquidação para o comércio estatal quando o acesso a dólares e bancos correspondentes se tornou restrito.
Embora um número definitivo para as reservas de Bitcoin e criptomoedas do país permaneça incerto, algumas estimativas apontam para US$ 60 bilhões.
Criptomoedas na Venezuela
A Venezuela tem se apoiado em criptomoedas há anos como uma alternativa em meio a sanções, colapso da moeda e disfunções bancárias.
Em 2018, Maduro lançou o petro como uma criptomoeda estatal lastreada em reservas de petróleo e minerais da Venezuela, numa tentativa de contornar as sanções dos EUA e atrair financiamento estrangeiro. No entanto, a iniciativa não obteve sucesso e foi descontinuada.
Restrições adicionais ao acesso do país ao sistema financeiro global impulsionaram as stablecoins a servirem como um substituto de fato do dólar no comércio local.
Embora isso tenha beneficiado civis e empresas, observadores alertam que os mesmos canais podem ser usados para contornar sanções e redirecionar pagamentos comerciais e de energia.
“As criptomoedas e as stablecoins têm desempenhado um papel duplo na Venezuela: funcionam como um canal financeiro essencial para civis em uma economia frágil, ao mesmo tempo que oferecem um canal alternativo de liquidação que atores e intermediários ligados ao Estado podem explorar quando as sanções restringem o acesso ao sistema financeiro formal”, disse Ari Redbord, chefe global de políticas da empresa de inteligência em blockchain TRM Labs.
Procuradores federais alegam que Maduro liderou uma longa conspiração narcoterrorista entre o Cartel de Los Soles, da Venezuela, e as FARC, da Colômbia, uma organização terrorista reconhecida que se tornou uma das maiores produtoras de cocaína do mundo entre 1999 e 2020.
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De acordo com a acusação complementar, altos funcionários venezuelanos usaram instituições estatais e as forças armadas para traficar grandes quantidades de cocaína para os EUA. Os procuradores afirmam que o grupo buscava deliberadamente usar as drogas como arma contra os EUA.
“A ausência de qualquer menção a criptomoedas na acusação complementar não diminui esse risco; reflete o foco da promotoria em narcóticos, corrupção e violência, e não um julgamento de que as criptomoedas sejam irrelevantes para o ecossistema financeiro mais amplo do regime”, disse Redbord.
O que esperar agora
Questionado sobre os riscos, Redbord observou que, após uma ação militar, “as coisas se movem mais rápido e se tornam mais frágeis”, acrescentando que, quando os canais tradicionais de comércio e pagamento são interrompidos, “pessoas e redes recorrem mais rapidamente a formas alternativas de movimentar dinheiro, incluindo stablecoins”.
“Ao mesmo tempo, governos e empresas privadas tendem a responder com mais força e de forma mais coordenada. O resultado é um ambiente mais volátil, onde os facilitadores se adaptam rapidamente e os padrões financeiros podem mudar em um curto período de tempo”, disse ele.
Pelo menos três sinais iniciais podem fornecer informações sobre as mudanças que estão por vir, explica Redbord.
“Primeiro, mudanças na demanda e nos preços das stablecoins. Aumento dos prêmios locais, maior rotatividade ou mudanças em direção às plataformas de stablecoins mais líquidas podem indicar estresse nos canais de pagamento tradicionais e maior dependência de criptomoedas para transações cotidianas e liquidação internacional”, disse ele.
Também haverá “concentração ou migração entre intermediários”, observou ele. “Sob pressão, a atividade geralmente se consolida em torno de um número menor de corretoras, corretoras de balcão (OTC), agentes de pagamento ou facilitadores informais que ainda fornecem acesso confiável à liquidez.”
Espera-se também que o comportamento da rede seja “consistente com a adaptação”, disse ele, com “maior rotação de carteiras, períodos de retenção mais curtos, camadas intermediárias adicionais e roteamento mais fragmentado”, possivelmente sinalizando “esforços para gerenciar o risco de detecção”, enquanto, inversamente, “quedas repentinas na atividade ligadas a serviços específicos podem indicar aplicação eficaz das regras ou redução de riscos”.
* Traduzido e editado com autorização do Decrypt.
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