Inspirações reais, limites morais e tecnologia
Sobre a nova obra, “Natal Amargo”, Almodóvar explicou que a personagem Mónica carrega inspirações de sua assistente, Lola García, mas apenas no aspecto profissional. Ao debater os limites de usar a vida real na arte, ele classificou o tema como um dilema moral.
“A natureza do criador literário ou de roteiros é egoísta. Se você encontra uma ideia fértil no seu entorno, é quase impossível renunciar a ela”, declarou. O diretor citou o escritor francês Emmanuel Carrère, que ficou dois anos sem falar com a mãe após publicar um livro sobre a família. “O ponto de referência deve ser tentar não fazer mal a ninguém”, completou.
O diretor também criticou a dependência tecnológica de Hollywood. Para ele, a autenticidade é um traço puramente humano. “A tecnologia tem um limite enorme para a criação porque parte de milhões de elementos que já existem. A pura inspiração não pode ser feita por nenhuma máquina.”
Avesso às redes sociais, Almodóvar disse não consumir a “felicidade performática” da internet. “Nunca houve tantas imagens como agora, mas não entro nesse tipo de exibição. A dor é uma experiência necessária”, disse. Ele destacou que a dor é o maior motor de sua inspiração, embora seus filmes também tragam humor.
Ao comentar sobre filmes cult, o espanhol diferenciou obras-primas esquecidas de produções cultuadas pela ironia. Citou “Wanda”, de Barbara Loden, como um filme brilhante salvo pelo esquecimento, e “Showgirls”, de Paul Verhoeven. “Na época foi um fracasso absoluto, mas os personagens são tão extremos que a obra se enche de humor, um humor colocado pelo espectador”, concluiu.