Home EntretenimentoPor que amamos odiar filmes ‘ruins’? A delícia de não gostar em conjunto

Por que amamos odiar filmes ‘ruins’? A delícia de não gostar em conjunto

por edineymartinstorres

A recente repercussão do longa-metragem “Sobrevivência”, dirigido e estrelado por Ben Affleck, reabre o debate sobre um fenômeno recorrente na cultura pop: o que leva o público a se engajar em massa com produções massacradas pela crítica ou divididas pela opinião pública? No filme, acompanhamos o candidato à prefeitura Mark Kimball em uma corrida contra o tempo para salvar seu filho sequestrado por um resgate de 7 milhões de dólares, quantia destinada à sua campanha. Apesar das premissas de suspense, a produção amargou apenas 31% de aprovação da crítica e 37% do público no Rotten Tomatoes. No entanto, dominou o TOP 10 do JustWatch e alcançou o 1º lugar na Netflix.

Essa discrepância escancara a força da curiosidade mórbida e do consumo irônico. Muitas vezes, a nota baixa atua como um chamariz em vez de um repelente. O espectador contemporâneo é impulsionado pelo desejo de constatar com os próprios olhos o quão “ruim” uma obra pode ser, participando ativamente das conversas e memes nas redes sociais. Algo semelhante ocorreu com o filme “Capitã Marvel” (2019), que, embora tenha enfrentado forte rejeição e baixas pontuações de parte da audiência (“review bombing”), bateu mais de um bilhão de dólares de bilheteria e gerou um volume colossal de engajamento e discussões acaloradas online. O fracasso de crítica e a controvérsia tornam-se, paradoxalmente, as maiores ferramentas de marketing de uma produção.

Além disso, o peso do elenco de “Sobrevivência” — que reúne nomes como Kerry Washington, Gillian Anderson, Steven Yeun e Ray Fisher — atenua a resistência do público, garantindo que o apelo comercial se sobreponha à qualidade técnica ou narrativa percebida pelos especialistas. O ato de “amar odiar” transforma a experiência individual de assistir a um filme em um evento coletivo e social. Na era do streaming, a busca por entretenimento não exige mais a garantia de aclamação, mas sim o senso de pertencimento a uma conversa global, onde o ruim ou divisivo é tão fascinante e valioso quanto a obra-prima.

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