Ocupar o espaço que Hollywood reserva para atores com olhos azuis faiscantes e um sorriso que vale milhões seria uma posição confortável, mas Redford, parte de uma geração disposta a mudar o mundo por meio da arte, queria mais. Ele seguiu “Descalços no Parque” com o ousado western “Butch Cassidy”, lançado em 1969 e primeira parceria com Paul Newman, que alcançou imenso sucesso crítico e comercial. O cinemão parecia ter encontrado seu novo garoto de ouro, mas Redford queria mais.
Curioso com o funcionamento dos bastidores do cinema, ele não foi creditado como produtor executivo da sátira política “O Candidato”, de 1972, mas a ideia de viabilizar projetos que talvez fugissem do escopo dos grandes estúdios estava plantada. Se o dinheiro é combustível da engrenagem hollywoodiana, Redford conseguiu azeitar a sua de forma espetacular ao longo da década de 1970, firmando-se como um dos maiores chamarizes de bilheterias da época.
A partir do western “Mais Forte Que a Vingança” (1972), que teve seu Jeremiah Johnson (é um meme, pode procurar) como inspiração para os quadrinhos italianos “Ken Parker”, Redford enfileirou os sucessos “Nosso Amor de Ontem” (com Barbra Streisand), “Golpe de Mestre” (mais uma vez com Newman), “O Grande Gatsby”. “Quando as Águias se Encontram” e “Três Dias de Condor”.
“Todos os Homens do Presidente”, outro sucesso de público e crítica, desta vez ao lado de Dustin Hoffman, consolidou a visão política que o astro enxergava no cinema ao retratar o escândalo de Watergate que derrubou o presidente Richard Nixon. “O Cavaleiro Elétrico”, mais uma vez com Jane Fonda, fechou a década novamente como um drama que cutucava a ganância de grandes corporações ante a reação do homem comum.
Para um artista, seria impossível ignorar o espírito do tempo. Enquanto os Estados Unidos eram escorraçados após a derrota na Guerra do Vietnã, a ilusão do “sonho americano”, difundida especialmente pelo cinema após o fim da Segunda Guerra, era estilhaçada a portas fechadas. Foi com esse espírito que Redford fez sua estreia como diretor em “Gente Como a Gente”, de 1980, que mostra a destruição de uma família “perfeita” após a morte de um filho.
Consagrado no Oscar como melhor filme, “Gente Como a Gente” também rendeu a Robert Redford a estatueta de melhor direção e marcou um ponto de virada para o cinema americano – menos ufanista, mais cínico, em choque com o governo do então eleito presidente Ronald Reagan. Redford sabia que seu país estava doente e apostou na arte para não esconder essa visão. Na frente ou atrás das câmeras, ele escolheu projetos que poderiam até trazer algum verniz hollywoodiano, mas que traziam em seu cerne personagens com muito a dizer sobre o estado das coisas.