Quem está minimamente por dentro da indústria de videogames sabe que o gênero soulslike, goste ou não da receita de bolo inventada pela FromSoftware, tornou-se o mais influente e prolífico. Nem é questão de opinião: basta ver a enxurrada de títulos inspirados na estrutura de Dark Souls. E vou além: hoje é difícil encontrar um RPG de ação que não reaproveite alguma coisa das obras do estúdio japonês.
Code Vein foi um dos primeiros a surfar na onda do soulslike fora do eixo FromSoftware e segue como um dos mais competentes, quase sete anos após seu lançamento, mas, sejamos sinceros, era “light” demais para os adeptos do estilo. Carinhosamente apelidada de anime souls, a franquia da Bandai Namco precisava ambicionar voos maiores e, olha só, encontrou em Elden Ring o itinerário para a sua evolução. Code Vein 2 é maior em todos sentidos.
Code Vein 2: Elden-like ou ring-like, como preferir
Meus primeiros minutos em Code Vein 2 me pegaram completamente desprevenidos. Afinal, eu só tinha assistido ao trailer de anúncio durante a Summer Game Fest 2025 e nada além disso. Evitei qualquer outro material de divulgação para preservar minha experiência, já que sabia que meu momento com o jogo chegaria.
Desprevenido, no bom sentido, porque Code Vein 2 foi o primeiro game desde Elden Ring e The Legend of Zelda: Breath of the Wild a me trazer um senso de liberdade sem precedentes quando pude vislumbrar seu mundo aberto pela primeira vez. É uma vastidão que intimida pelo que há no horizonte, mas que, ao mesmo tempo, instiga o jogador pela própria curiosidade.
Sim, Code Vein 2 se diferencia de seu antecessor sobretudo por aposentar as áreas interconectadas e adotar um mapa que, desde o início, convida à exploração. Interagir com as atrações do playground pós-apocalíptico da Bandai Namco acontece de maneira orgânica: todas as paisagens que seus olhos alcançam são plenamente viáveis de desbravar, bastando ter disposição para explorá-las.
Todas as paisagens que seus olhos alcançam são plenamente viáveis de desbravar, bastando ter disposição para explorá-las
Imagem: Flow Games/Victor Teixeira
Apesar de deixar o jogador se aventurar livremente, sem indicadores na tela, as missões principais são mais guiadas e ficam dispostas em uma lista, num formato mais tradicional de RPG, apontando exatamente a zona em que o seu próximo objetivo deve ser concluído. A provação não é saber como ou onde prosseguir na história, e sim os desafios pelos quais passamos no trajeto, geograficamente falando.
O mundo aberto rouba a cena
Code Vein 2 respeita o tempo de quem joga e recompensa por absolutamente tudo, mesmo quando a disponibilidade para sessões longas de jogatina é limitada. Catacumbas, ruínas e cavernas escondem armas e equipamentos que aumentam a potência e a quantidade de seus itens de cura, enquanto o mapa só se revela depois que você corta uma árvore contaminada na região.
Característica do gênero, a dificuldade crescente se mantém, mas pode ser remediada de diversas formas, seja adquirindo pontos de experiência e aprimorando seu arsenal, seja habilitando monumentos pelo mundo para ganhar impulsos valiosos, como aumentos significativos em certos atributos do personagem. Travou em um boss? Então explore e ative o “modo fácil” na raça.
Imagem: Flow Games/Victor Teixeira
Não sei você, mas eu tenho grande admiração por jogos difíceis que buscam soluções inteligentes para facilitar a experiência dos recém-chegados aos soulslikes, sem recorrer à conveniência de um seletor de dificuldade no menu. As produções da FromSoftware, com exceção do masoquismo de Sekiro: Shadows Die Twice, sempre fizeram isso com excelência, e Code Vein 2 faz tão bem quanto.
Obviamente não vou dar spoilers aqui, mas o mundo aberto, embora não seja colossal em extensão, se mostra maior do que realmente é à medida que progredimos, justamente por ser segmentado em mais de uma camada – quem jogou Elden Ring ou The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom vai captar o que eu estou falando.
Para que você não precise se deslocar a pé por 200 horas, o jogo é generoso o suficiente e concede uma moto como ferramenta de locomoção, facilitando nos momentos de travessia e, principalmente, na hora de fugir de criaturas de nível superior. Controlar o veículo, contudo, não é lá essas coisas: a movimentação é meio “ensaboada” e carece de peso, mas dá para quebrar o galho – afinal, a moto é somente um mecanismo auxiliar.
Code Vein 2 busca soluções inteligentes para facilitar a experiência dos recém-chegados aos soulslikes, sem recorrer à conveniência de um seletor de dificuldade
Imagem: Flow Games/Victor Teixeira
Mesmas virtudes e ressalvas
Até aqui, você já deve ter percebido que Code Vein 2 tenta emular, ao seu modo, isto é, num escopo mais contido, a experiência de Elden Ring. E sim, ele consegue. Ainda assim, na humilde opinião deste redator que vos escreve, nenhum jogo é perfeito, e isso vale também para Elden Ring, mesmo sendo um dos poucos games nota 10 dos últimos anos.
Em outras palavras, o mundo de Code Vein 2 herda tanto as virtudes quanto as limitações das Terras Intermédias. Para começar, o level design das dungeons menores, que aqui são nomeadas de ruínas ou catacumbas, praticamente inexiste e se resume a corredores lineares e pouco inspirados. Há também uma repetição descomedida de inimigos comuns, que são reaproveitados como chefes nessas pequenas áreas, tornando algumas batalhas bastante previsíveis.
Por outro lado, as masmorras principais vinculadas à história, equivalentes às legacy dungeons de Elden Ring, são o puro suco do soulslike. Atalhos inesperados, ramificações, armadilhas sacanas, inimigos espremidos em corredores claustrofóbicos e trechos mal iluminados são apenas alguns dos elementos que você vai encontrar no decorrer da ardilosa jornada, seguindo à risca a cartilha de tortura da escola FromSoftware.
O mundo de Code Vein 2 herda tanto as virtudes quanto as limitações das Terras Intermédias
Imagem: Flow Games/Victor Teixeira
Viagens no tempo são um acerto
Volto a enfatizar que não pretendo dar nenhum tipo de spoiler no texto, então vou me limitar a um breve contexto do enredo e do objetivo principal. De forma bem resumida, como um caçador de aparições, você deve viajar entre passado e presente com a ajuda de Lou, uma garota que manipula o tempo, para impedir o colapso do mundo.
Você, portanto, deve retornar à era antiga do mundo, 100 anos antes, para alterar seus eventos e, assim, evitar consequências trágicas no presente. No que tange à trama, Code Vein 2 se distancia de suas influências para favorecer o desenvolvimento de personagens cativantes, cada um representando um arquétipo (clichês de animes à parte). Não há nada de abstrato nos diálogos ou na narrativa: tudo é “mastigado”, com começo, meio e fim.
Alternar entre passado e presente não afeta apenas a história: você percebe desdobramentos no mundo ao seu redor. Por exemplo, o passado é marcado por conflitos e guerras e, portanto, mais populoso, ao passo que o presente é um mundo pós-apocalíptico sombrio e desolado, lutando para se reconstruir, embora ainda tecnologicamente avançado em certas áreas.
Alternar entre passado e presente não afeta apenas a história: você percebe desdobramentos no mundo ao seu redor
Imagem: Flow Games/Victor Teixeira
A magia técnica que se materializa quando há um salto temporal evidencia que Code Vein 2 não quis ser só mais um soulslike, mas sim o principal elden-like (ou ring-like) a ser superado daqui para frente. O contraste que existe entre esses 100 anos serve como um doutorado de level design para futuras produções do estilo: é como se tivéssemos dois mundos abertos em um mesmo terreno, cada qual com sua própria identidade.
Ainda que não tenha atrapalhado minha experiência durante os testes em um PlayStation 5 Pro, vale mencionar os tropeços de desempenho que o jogo apresenta em ambos os mundos e modos, desempenho e qualidade. As quedas não são frequentes, é verdade, apesar de serem nitidamente perceptíveis quando acontecem. Fica a dica a quem tem olhos treinados em performance.
Combate multifacetado e melhor que nunca
Diferentemente do título original, o combate de Code Vein 2 divide o protagonismo com a exploração e, para não ser ofuscado, precisou de novas camadas. Mais complexo que antes, o sistema de batalha permite equipar, em maior quantidade, celas, armas, habilidades e itens que concedem buffs e proteções específicas ao personagem.
Imagem: Flow Games/Victor Teixeira
As classes, aqui tratadas como códigos de sangue, ganharam ainda mais importância e podem mudar drasticamente a forma como seu herói se comporta em batalha. Em termos de ritmo, você pode transitar entre um souls mais tradicional e cadenciado, a depender da especialidade escolhida, até um hack and slash frenético, pautado em parry e esquiva perfeita. O importante é: você joga como quiser e vale tudo, desde foices gigantescas a armas de fogo.
Na prática, as melhorias nos sistemas favorecem a criação de builds únicas e diversificadas, capazes de se adaptar a qualquer perfil de jogador de games de ação. Inclusive, ficou mais fácil criar combinações para deixar o personagem excessivamente forte, caso você tenha a intenção de “quebrar” o jogo, um modus operandi clássico de quem curte soulslike.
Além disso, você sempre conta com um NPC para acompanhá-lo na jornada, ou seja, um parceiro para jogar em dupla. No entanto, é possível absorvê-lo, literalmente, se preferir seguir na empreitada de lobo solitário, garantindo boosts fixos a quem se arrisca sem ajuda. Quer queira, quer não, ter companhia continua sendo um recurso facilitador (e há quem simplesmente não faça questão de uma mãozinha).
Imagem: Flow Games/Victor Teixeira
No fim, meio que não importa o equipamento, tampouco a classe: o combate de Code Vein 2 funciona bem em qualquer escolha. O ciclo vampiresco de enfraquecer o inimigo, quebrar a guarda e drenar seu sangue para reabastecer os pontos de habilidade é absolutamente viciante, trazendo frescor a uma arquitetura de gameplay já desgastada pelo uso em excesso.
Veredito
Code Vein 2 dá um salto absurdo em relação ao primeiro título e amplia seu escopo em todos os sentidos possíveis. Menos soulslike, mais elden-like ou ring-like, se é que esses rótulos já existem, a sequência do anime souls alcança níveis de qualidade equivalentes aos de sua principal inspiração. Exploração orgânica e combate variado caracterizam o primeiro grande jogo que ousou, à sua maneira, oferecer uma experiência análoga à de Elden Ring.
Analisado no PS5 Pro.
Uma cópia de Code Vein 2 foi gentilmente cedida pela Bandai Namco para o propósito de análise
—
Quer encontrar os melhores preços de games na internet? Conheça o Low Games! Descontos em jogos, acessórios, consoles, gift cards e muito mais para todas as marcas! Visite: