A forte elevação dos juros futuros japoneses, especialmente a partir do dia 19 de janeiro, acendeu um alerta importante nos mercados globais e para o Bitcoin. Os juros de 30 anos chegaram a cerca de 3,9% e os de 40 anos alcançaram 4,2%, níveis historicamente elevados para um país que passou décadas convivendo com taxas próximas de zero.
Esse movimento ocorre em um contexto delicado, marcado por inflação mais alta, dificuldades na demanda por títulos públicos e uma relação dívida/PIB que ultrapassa 260%. Quando o mercado exige juros maiores para financiar um governo tão endividado, o recado é claro: cresce a percepção de risco sobre a trajetória fiscal e a capacidade de pagamento de longo prazo.
No curto prazo, esse movimento afeta o Bitcoin principalmente por dois canais. O primeiro é o carry trade. O Japão sempre foi uma fonte de financiamento barato para investidores globais, que tomavam empréstimos em iene e aplicavam em ativos mais rentáveis ao redor do mundo, incluindo ações e criptoativos. Com a alta dos juros, esse custo aumenta e a estratégia perde atratividade, levando à desmontagem dessas posições e gerando pressão vendedora.
Leia também: Como uma crise nos títulos do Japão está pressionando a liquidez global e o Bitcoin
O segundo canal passa pelos balanços de bancos e instituições financeiras japonesas. A valorização dos juros derruba o preço dos títulos já emitidos, pressionando essas instituições a vender ativos no exterior para recompor capital, o que ajuda a explicar quedas em mercados tradicionais e também em cripto.
Uma forma simples de entender esse processo é pensar na liquidez global como uma maré. Durante anos, o baixo custo de financiamento no Japão manteve essa maré elevada, com mais dinheiro circulando e sustentando ativos de risco. Quando os juros sobem, a maré começa a baixar.
Como o Bitcoin é altamente sensível à liquidez, ele funciona como um barco sobre essa água: quando o nível da maré cai, o barco passa a flutuar em um patamar mais baixo, o que se traduz em preços menores no curto prazo. Além disso, há um efeito de contágio, já que a alta dos juros japoneses começa a pressionar as curvas de juros em outras economias, como Estados Unidos e Europa, piorando o sentimento global de risco.
Mas existe uma leitura mais profunda e estrutural por trás desse movimento. O próprio fato de os juros de longo prazo estarem subindo reflete uma maior desconfiança dos investidores em relação às políticas fiscais e monetárias dos governos e à sustentabilidade das dívidas públicas. E foi exatamente esse tipo de desconfiança que motivou a criação do Bitcoin.
O ativo surgiu como uma alternativa a sistemas monetários dependentes de decisões políticas, oferecendo uma forma de dinheiro escasso, descentralizado e que não é passivo de ninguém. Quando o mercado passa a precificar riscos crescentes nas dívidas soberanas, ele reforça, na prática, a tese de longo prazo que sustenta a existência do Bitcoin.
Por isso, mesmo que no curto prazo a alta dos juros pressione o preço do BTC via liquidez e carry trade, o pano de fundo aponta para algo diferente. Estamos vendo uma busca clara por hard assets, ativos que não carregam risco de crédito, como ouro e prata, ambos com performances muito fortes recentemente.
O Bitcoin, do ponto de vista fundamental, reúne talvez o maior conjunto de atributos de um hard asset moderno, mas ainda não vem sendo precificado como tal nesse cenário. Isso abre uma assimetria interessante: enquanto os mercados reconhecem os riscos que justificaram o surgimento do Bitcoin, o ativo ainda não reflete plenamente essa leitura em preço. A pergunta que fica é se essa assimetria pode durar muito tempo ou se estamos diante de uma oportunidade relevante se desenhando à frente.
Sobre o autor
Pedro Fontes é graduando em economia na UFRJ e finalista do CFA Challenge Brasil. Começou sua jornada no mercado cripto em 2021, trabalhando na área de tokenização de carteiras de investimento. Atualmente integra a equipe de analistas de criptoativos do MB.