Home EsportesEscolta em tanque, fuzis e mais: brasileiro conta bastidores tensos do ‘El Clásico’ da Ásia

Escolta em tanque, fuzis e mais: brasileiro conta bastidores tensos do ‘El Clásico’ da Ásia

por edineymartinstorres

Escolta em tanques, policiais armados com fuzis na garupa de motos… elementos que poderiam facilmente ser atribuídos a um cenário de guerra são, na verdade, realidade constante em um dos clássicos de maior rivalidade no futebol asiático, protagonizado por Persija Jakarta e Persib Bandung na Indonésia.

Com quase 100 anos de história, o “El Clásico da Indonésia”, como assim é conhecido no país que tem o futebol como um dos esportes mais adorados ao lado do badminton, movimenta verdadeiras multidões ao estádio. Mas por lá a rivalidade extrapola os limites – o que também requer um esquema de segurança para lá de especial e que não é visto nem mesmo no Brasil.

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Enquanto o Persija é da capital, Jacarta, o Persib fica em Bandung, cidade litorânea a pouco mais de 150 quilômetros de distância, o que dá menos de três horas de carro.

Entre os muitos que já viveram – e vivem – esta experiência, está um jogador brasileiro. Nascido no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, o atacante Gustavo Almeida é mais um andarilho da bola, que encontrou no Sudeste Asiático a possibilidade de crescer no futebol. Hoje é ídolo do Persija.

Em entrevista à ESPN, o camisa 70 do clube de Jacarta contou os bastidores do “El Clásico” e admitiu que, por mais que já esteja acostumado à atmosfera da partida, até hoje se impressiona com o que vivencia fora e dentro de campo.

“Nem no Brasil tem (essa atmosfera). As pessoas não imaginam que o futebol da Indonésia é tão caloroso assim. É igual ao Brasil, muita torcida, muito cheio. Eu jogo em um dos maiores (clubes) junto do Persib Bandung, então são as torcidas mais fanáticas, é casa cheia mesmo. E quando vamos jogar o clássico, vamos no tanque de guerra”, relatou o brasileiro.

Gustavo já está na sua terceira temporada no Persija, mas chegou ao futebol indonésio em 2023 para defender as cores do Arema, onde se destacou com 14 gols em 16 jogos. Apesar de a rivalidade com o Persib ser menor em relação à sua equipe atual, ainda assim estufar as redes na casa do rival tem os seus “riscos”.

“Eu lembro quando eu cheguei, (ainda) pelo Arema, quando jogamos com o Persib também fomos no tanque de guerra. Eles falavam ‘se você fizer gol no clássico, na casa dos caras, não comemora, não vai fazer loucura porque os caras são loucos’. Já tinha visto vídeo de torcida, mas não achei que fosse tão louco assim. No meu primeiro jogo contra o Persib eu já fiz um hat-trick, só que foi no nosso mando e foi tranquilo. Contra eles lá, eu fiz gol no último minuto, meti a (comemoração) do Cristiano Ronaldo, foi loucura. Eu vi o estádio descer, o pessoal tacando coisas. Eles são fanáticos a esse ponto mesmo, urinam na garrafa e tacam no jogador, uma coisa surreal”, disse.

“A minha primeira vez no tanque, eu falei ‘meu Deus, o que é isso?’. Você vai no tanque de guerra, fora os motoqueiros da polícia, um vai pilotando e outro na garupa com fuzil, você fala ‘que loucura é essa, gente?’. Você chega no estádio, aquela atmosfera, nem no campo aquecemos, subimos só para o jogo. É surreal, coisa de Libertadores, Brasil x Argentina”, prosseguiu.

“Vamos até um certo ponto de ônibus, vamos no tanque e vamos para o jogo. Ficamos em um hotel estratégico também, é um certo esquema de segurança, é uma parada muito louca, só quem vivencia… você desce para o café da manhã e tem um monte de policial, parado lá, coisa de louco mesmo, nesse nível. Teve uma vez que descobriram torcedores que foram soltar fogos 3 horas da manhã, aí os policias estavam lá e deu briga”.

“Se você não for no tanque de guerra, a torcida adversária vira o ônibus, quebra, é uma parada louca. Vivenciando, você fica ‘meu Deus, que loucura’. Já joguei muitos outros clássicos, sempre faço gol nos clássicos, então o Persib é um time que eu já fiz alguns gols (risos)”.

Assim como em um Barcelona e Real Madrid, os dias que antecedem o “El Clásico” indonésio são movimentados. Inclusive, com a presença dos torcedores no CT dos clubes – para incentivar os jogadores a ganharem a partida a todo custo.

“A torcida vai em peso no CT na véspera e falam ‘esse jogo a gente não pode perder’. Loucura. É uma semana diferente, só que como um dos líderes, eu falo (que) é um jogo de futebol, mas o clima e a atmosfera são diferentes. Muito top vivenciar e jogar”, contou, comparando a atmosfera do futebol da Indonésia com à do Brasil, citando até mesmo clássicos tradicionais do país.

“O futebol indonésio é muito mais próximo (ao brasileiro), também a quantidade de brasileiros que têm lá. Um futebol competitivo. Eu colocaria como o mais próximo que eu joguei, de atmosfera, de vivência. O Brasil na questão técnica é diferenciado, mas no contexto geral, o mais próximo é a Indonésia”, disse.

“Eu colocaria Flamengo x Vasco, Corinthians x Palmeiras, Inter x Grêmio, nesse nível. Aquele jogo que você não pode perder, você pode perder para qualquer um, mas para eles, não. É nesse nível”.

Além de Gustavo, o Persija tem muitos outros brasileiros, icluindo a dupla ex-Vasco Alan Cardoso e Bruno Tubarão, além do técnico Maurício Souza, que além do Cruzmaltino também passou pelo Flamengo.

‘Homem na Estrada’

Gustavo é mais um menino sonhador. E assim como muitos, viu no futebol a oportunidade de ter uma vida melhor e realizar todos os sonhos possíveis. A sua história começou em uma escolinha de futebol, comandada pelo pai do ex-volante Denílson, que passou por São Paulo e Arsenal.

“Comecei mesmo a treinar, em escolinha, no Estrela da Saúde, no Aracati, com o professor Pereira, pai do Denílson. Era como se fosse um clube mesmo, preparava os jogadores para os clubes, então tinha uma avaliação no treinamento. Eu comecei ali a minha caminhada, os aprendizados, tinha o Denílson, que já tinha sido campeão mundial pelo São Paulo em 2005, depois é transferido para o Arsenal. Ele vinha e férias e estava sempre com a gente. Ali foi o primeiro impacto, a gente olhava e falava ‘é real’. Imagina, treinar com um cara que há um mês estava com Henry, Van Persie, jogando Champions League. Ali foi o primeiro passo para acreditar que era possível”, lembrou, citando Denílson como a sua primeira grande referência dentro das quatro linhas.

“Com o Denílson é uma relação muito boa com a família inteira. Tinha essa questão dele estar sempre no Estrela da Saúde e o irmão dele mais novo é da minha idade, a gente era muito junto. A gente morava próximo, acaba o treino e eu ia para a casa dele, todo fim de semana eu dormia lá. O Denílson foi importante nesse sentido porque tinha esse lado de ver um jogador do patamar que ele estava na época, que é o nível máximo, e de estar convivendo com ele todos os dias”, disse.

“Ele foi a primeira pessoa que eu olhei, em todos os sentidos, e falava ‘é possível’. Ele foi e ainda é um amigo muito íntimo, estamos sempre conversando. Quando a gente fala em ser jogador de futebol para um menino da periferia, se ele não tem algum exemplo ou alguém que saiu de onde ele está, é uma janela muito distante. Tem o sonho, que todos falam que é possível, mas ao mesmo tempo fica distante. Mas a gente ali, sempre teve ele. Depois surgiram muitos outros, mas ele foi o primeiro que foi a maior referência”.

Depois de deixar o Estrela da Saúde, o atacante foi para o Linense, onde teve a oportunidade de jogar a Copinha pela primeira vez. Depois ainda rodou por Marília, Esportivo-RS e outros clubes, até se destacar pelo Vitória da Conquista no Campeonato Baiano e ter a chance de assinar um pré-contrato com o Bahia.

Quis o destino, porém, que a sua próxima parada fosse, na verdade, o Vietnã, em uma realidade completamente diferente. Lá ele ficou uma temporada no Nam Dịnh, de 2018 a 2019. Começava a sua aventura, ainda sem fim, pela Ásia.

“O combinado era eu ir para o Bahia jogar o Brasileiro de Aspirantes, ver a performance e depois integrar o principal para jogar o Brasileirão. De primeira já seria um salto muito importante, pular do Vitória da Conquista, que jogava Copa do Nordeste e Série D, e ir para um time que vai jogar Série A. Só que ao mesmo tempo eu sempre tive aquele desejo de jogar fora, para mudar a minha condição e a da minha família”, lembrou.

“Quando chega a proposta do Vietnã, já com pré-contrato com o Bahia, era em dólar, eu já tinha um amigo que joga lá até hoje. Ele falou para mim ‘vem, aqui é diferente, mas você vai gostar’. Aí teve outros detalhes, a vida, receber em dólar, um contrato mais seguro. Muitas pessoas falaram ‘você é doido, vai trocar um time de Série A para ir para o Vietnã, ninguém vai lembrar de você’. Foi uma escolha minha, conversando na época com o meu pai, ele falou ‘vou te apoiar, vai ser feliz'”.

“Eu fui e não errei na decisão. Esses anos todos fora do Brasil foram maravilhosos, independentemente dos altos e baixos, foi muito bom para chegar ao nível que eu cheguei hoje. Talvez se eu tivesse ficado no Bahia, poderia ter tido uma carreira no Brasil, mas não me arrependo”.

Gustavo ainda passou por Malásia, Japão e Kuwait antes de rumar para a Indonésia. E como toda jornada tem uma trilha sonora, a do atacante foi o grupo de rap Racionais MC’s, formado por Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay no Capão Redondo, onde foi criado.

“Cresci no Capão Redondo, não tem como, é inevitável (risos). Quem falar que nunca ouviu, vai estar mentindo. A minha mãe sempre ouviu, então eu tenho as lembranças da minha mãe arrumando a casa ouvindo ‘O Homem na Estrada’. Eu cresci com isso, ouvindo. Quando você é muito novo você só canta, só que você cresce e começa a ver a letra, prestar mais atenção. Buscando um pouco mais de conhecimento, você vê algumas letras dos Racionais que fazem referência à Bíblia, outros livros, referências do mundo. É muito importante”, confidenciou.

“Eu relaciono a música como algo muito importante, todos os momentos da minha vida, bons ou ruins, de dúvida, sempre a música vai te trazer algo importante, e eu curto o rap. Infelizmente, ainda tem aquele lado que as pessoas discriminam, que o rap é coisa de quem não presta, ainda tem toda essa discussão, mas eu sempre gostei, escuto, por ser do Capão eu tenho amigos em comum com o pessoal do grupo. Eu já tive a oportunidade de conversar por chamada de vídeo, já os vi na rua, porque para a gente é normal, frequentava muito a Fundão, tenho amigos lá, estamos sempre juntos. É inspirador, se você pegar a letra, a forma como eles abordam”.

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O atacante citou também a importância da sua estrutura familiar para que, hoje, ela possa estar trilhando um caminho de sucesso a muitos quilômetros de distância do Brasil.

“Depois de chegar aonde eu cheguei, a estrutura familiar é o mais importante. Eu sempre tive os meus pais, que sempre pegaram firme nesse sentido. Todo jovem de periferia vai ter as suas fases, os seus momentos, mas a estrutura familiar é o grande diferencial. Teve momentos que foram necessárias as conversas que eles tiveram comigo para poderem me colocar no caminho. Minha mãe e o meu pai são pessoas bem sábias”, disse.

“Depois você cresce e entende um pouco melhor as coisas, vai caminhando. Hoje eu tenho esposa, filha, são pessoas maravilhosas, a estrutura familiar é o grande diferencial para você ter uma base de sucesso. E quando eu falo em sucesso, não é só a questão financeira, hoje as pessoas conciliam sucesso com o dinheiro, mas não é. O dinheiro vai ser automático, ele vai vir, independentemente da sua profissão, mas estrutura familiar, estar cercado de pessoas que vão falar as coisas quando você tem que ouvir, seja boa ou ruim”.

E sobre uma possível volta ao futebol brasileiro no futuro, Gustavo deixou claro que, por enquanto, isso ainda não está nos seus planos.

“Para ser bem sincero, hoje estou bem adaptado na Indonésia, a minha família também. Eu e minha esposa já conseguimos nos comunicar na língua, estamos aprendendo a língua local. Mas a gente nunca pode falar nunca, a gente nunca sabe o dia de amanhã, mas se aparecesse algo que fosse importante e que eu visse que seria legal para mim encarar um desafio novo no Brasil, um clube que pudesse me dar algum tipo de estrutura, eu talvez encararia. Mas, hoje, é ficar mesmo na Indonésia. Eu vou me desafiando a cada temporada, estou bem feliz, a minha família também, converso com a minha esposa, por ela zero possibilidade (risos). Mas a gente nunca sabe o dia de amanhã”, finalizou.

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