Home TecnologiaGolpistas usam programas do governo em anúncios falsos na Meta: Valores a Receber e Minha Casa Minha Vida estão na lista, aponta NetLab/UFRJ

Golpistas usam programas do governo em anúncios falsos na Meta: Valores a Receber e Minha Casa Minha Vida estão na lista, aponta NetLab/UFRJ

por edineymartinstorres


Anúncios fraudulentos prometiam consultas a supostos valores disponíveis e direcionavam usuários a sites que simulavam serviços oficiais
Reprodução/NetLab-UFRJ; Arte/g1
Golpistas têm usado programas e serviços públicos, entre eles Valores a Receber, Brasil Sorridente e Minha Casa Minha Vida, como iscas em anúncios falsos nas plataformas da Meta.
É o que mostra um estudo do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ), ao qual o g1 teve acesso com exclusividade.
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Entre janeiro e março de 2026, os pesquisadores identificaram 860 anúncios fraudulentos, publicados por 152 páginas, que exploravam políticas públicas brasileiras no Facebook, Instagram e em outras plataformas da empresa.
Agora no g1
Para Débora Salles, coordenadora-geral de pesquisa do NetLab, o número representa apenas uma parte de uma estrutura maior e organizada.
“A gente chama de indústria da desinformação, porque vê que é um negócio organizado e estruturado. Apesar de 860 anúncios já ser um volume considerável, sabemos que estamos vendo a ponta do iceberg. Enfrentamos muitas limitações na transparência que a Meta oferece sobre publicidade. Então, o que conseguimos coletar e arquivar é uma fração do problema”, explica.
“Um único anúncio pode ser visto por milhares ou até milhões de pessoas. Quando contabilizamos um anúncio, isso não significa que ele seja apenas um post visto por poucas pessoas. Não sabemos quantas pessoas viram esses conteúdos, porque a Meta também não oferece esse tipo de informação”, diz Débora.
Procurada pelo g1, a Meta não respondeu até a publicação desta reportagem.
O serviço mais utilizado pelos golpistas foi o Valores a Receber, do Banco Central, citado em 345 anúncios.
Em seguida aparecem:
Brasil Sorridente: 230 anúncios;
Minha Casa Minha Vida: 67;
Auxílio Gás: 62;
Bolsa Família: 31;
CNH do Brasil: 30;
Carteira de Trabalho: 29;
Desenrola Brasil: 19.
De acordo com o levantamento, 26,3% dos anunciantes exploraram mais de uma política pública em suas publicações.
Segundo Débora, programas que envolvem pagamentos ou benefícios diretos têm maior potencial para atrair vítimas. O Valores a Receber também alcança um público amplo, sem restrições de idade ou condição socioeconômica.
“Quando envolve recebimento de dinheiro, existe uma questão de ser mais atrativo para o usuário: ‘Opa, posso conseguir um auxílio de forma facilitada, um auxílio que eu nem sabia que tinha direito’. Isso funciona como um chamariz para a possível vítima. No caso das políticas públicas, quanto mais direta a relação financeira, maior o apelo.”
As peças usavam promessas falsas ou informações fora de contexto para fazer os usuários acreditarem que tinham direito a dinheiro, benefícios ou serviços inexistentes. Em alguns casos, os anúncios direcionavam as vítimas a sites que cobravam uma taxa para consultar o suposto benefício.
Uma das falsas promessas afirmava que o governo teria liberado até R$ 12 mil para todas as pessoas que trabalharam nos últimos anos. Outros anúncios divulgavam um programa inexistente de cashback para usuários de cartão de crédito.
Os anúncios também se apropriavam da identidade de veículos de imprensa e de conteúdos com aparência jornalística para parecer legítimos. Entre os casos identificados, páginas falsas usavam o nome e elementos visuais do g1 para divulgar supostas consultas a valores disponíveis. As peças não tinham relação com o veículo e buscavam levar o usuário a sites fraudulentos.
Sites simulavam canais oficiais
O estudo identificou 185 anúncios, 21,5% do total, que usavam páginas e sites para simular canais oficiais do governo.
Em 154 anúncios, o usuário era direcionado para um site que se apresentava como uma página oficial. Outras 66 peças foram publicadas por páginas que usavam nomes ou elementos visuais associados ao governo e a programas públicos. As duas estratégias apareciam de forma combinada em parte das publicações.
Os endereços dos sites também incluíam referências a instituições e serviços públicos, além de expressões como “oficial” e “org”, para transmitir legitimidade.
Em um dos exemplos analisados, uma página prometia uma consulta gratuita ao Brasil Sorridente, mas encaminhava o usuário a um site repleto de anúncios. Segundo o NetLab, o objetivo era fazer a pessoa percorrer diferentes páginas para gerar receita publicitária.
Segundo o NetLab, muitas das páginas praticamente não mantêm atividade pública regular e são reaproveitadas para diferentes campanhas.
“Muitas vezes, elas têm perfis que são quase fantasmas nas plataformas. Do ponto de vista do conteúdo orgânico, publicam muito pouco. Também trocam de nome e imagem: em algum momento a página foi Fabiana, depois vira gov.br e depois vira Ronaldo. Elas são recicladas”, explica.
Quase metade utilizava inteligência artificial
Dos 860 anúncios analisados, 394, ou 45,8%, apresentavam vídeos gerados ou manipulados por inteligência artificial.
Entre as estratégias identificadas estão vídeos com imagens manipuladas de políticos, jornalistas e outras figuras públicas. Segundo a pesquisa, esses rostos conhecidos eram usados para dar credibilidade às publicações e induzir os usuários ao erro.
Uma deepfake do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) apareceu em pelo menos 16 anúncios da amostra. De acordo com o NetLab, o vídeo já era utilizado desde 2025 em golpes relacionados ao Pix.
Anúncios fraudulentos usavam uma deepfake do deputado Nikolas Ferreira e uma página falsa com o nome e a identidade visual do g1 para divulgar supostos valores a receber
Reprodução/NetLab-UFRJ; Arte/g1
O estudo também encontrou 146 anúncios, 17% do total, que usaram o recurso de “criativo dinâmico” da própria Meta. A ferramenta combina diferentes imagens, títulos e textos com inteligência artificial para mostrar versões distintas de uma mesma publicidade.
Assim, um anúncio pode exibir conteúdos diferentes de acordo com o usuário alcançado ou a plataforma em que aparece. Em um dos casos, a mesma campanha mostrou uma imagem de cidade, o depoimento de uma suposta beneficiária e a deepfake de Nikolas.
Para os pesquisadores, a existência de várias versões pode dificultar a identificação das irregularidades e ser explorada para contornar os mecanismos de fiscalização.
Anúncio ficou 73 dias no ar
Anúncio fraudulento que prometia reduzir parcelas de financiamento de veículos permaneceu no ar nas plataformas da Meta por 73 dias
Reprodução/NetLab-UFRJ; Arte/g1
Os anúncios fraudulentos permaneceram ativos por uma média de 4,4 dias. O NetLab avalia que o período curto pode indicar uma estratégia de campanhas rápidas, substituídas frequentemente para reduzir as chances de detecção.
Apesar disso, 14 anúncios ficaram no ar por mais de um mês. Um deles permaneceu ativo durante 73 dias, quase dois meses e meio.
O estudo afirma que a permanência das peças por períodos prolongados mostra falhas da plataforma em interromper a circulação de campanhas fraudulentas.
Rede de páginas administradas na China
Os pesquisadores também identificaram uma rede de 18 páginas administradas na China, responsável pela publicação de 67 anúncios enganosos.
As peças misturavam referências ao Brasil Sorridente, Bolsa Família e Valores a Receber, além de divulgar benefícios inexistentes. Algumas das páginas também publicavam conteúdos semelhantes em inglês e espanhol.
“Foi interessante perceber que esse é um mercado internacional, que não está restrito ao Brasil. Muitas dessas páginas promovem golpes em outros idiomas, para outros países e outros públicos. É realmente uma indústria transnacional que atua sem grandes obstáculos nessas redes sociais”, explica a coordenadora do estudo.
Embora os anúncios analisados não fossem de propaganda eleitoral, Débora afirma que a atuação de páginas administradas no exterior revela uma vulnerabilidade que também pode ser explorada durante a disputa de 2026.
“Isso mostra que estamos suscetíveis à influência externa no que diz respeito à fraude. Mas, quando pensamos no contexto eleitoral, também fica claro que a Meta não está controlando quem veicula conteúdo problemático ou político para o país. Isso é extremamente sensível.”
Segundo a pesquisadora, a legislação eleitoral não permite que campanhas sejam financiadas ou impulsionadas do exterior. Para ela, a rede identificada pelo estudo serve de alerta sobre a capacidade de agentes estrangeiros alcançarem usuários brasileiros.
“A evidência de que existe uma rede de páginas promovendo esses conteúdos a partir da China mostra que, com uma probabilidade muito alta, isso também pode acontecer nas eleições. É um alerta, porque, nas eleições, isso pode ter impacto direto nos resultados.”
A localização foi identificada a partir das informações de transparência fornecidas pela própria Meta. A empresa, no entanto, não divulga esse dado em todos os casos.
Por isso, não é possível estimar quantos anúncios foram pagos fora do Brasil e direcionados ao público brasileiro nem determinar a dimensão completa das redes estrangeiras envolvidas.
Como foi feito o estudo
O NetLab coletou anúncios da Biblioteca de Anúncios da Meta publicados entre 1º de janeiro e 31 de março de 2026.
A busca foi feita de forma automatizada, a partir de termos relacionados a políticas públicas brasileiras. Depois, os pesquisadores combinaram métodos computacionais e análise qualitativa para identificar peças com indícios de golpes, padrões suspeitos e violações das normas publicitárias.
A pesquisa analisou apenas anúncios disponíveis nas plataformas da Meta. Segundo o laboratório, os 860 casos representam uma parte de um mercado maior, que também atua em outras redes sociais.
O relatório aponta ainda que a falta de informações públicas, completas e auditáveis sobre a publicidade digital dificulta a identificação dos responsáveis, o cálculo da dimensão do problema e a fiscalização das campanhas.

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