Durante anos, uma das principais críticas ao Bitcoin como reserva de valor foi sua volatilidade. O argumento era simples: um ativo que oscila tanto não pode cumprir bem a função de proteção patrimonial.
O ouro, por outro lado, sempre foi visto como o “porto seguro”, estável e previsível. Mas 2026 trouxe um dado curioso. Pela segunda vez, em um intervalo de menos de um ano, a volatilidade mensal do ouro ultrapassou a do próprio Bitcoin, como destacou recentemente o time quantitativo do JPMorgan. Em outras palavras, o ativo tradicionalmente associado à estabilidade passou a oscilar mais do que aquele frequentemente criticado por ser volátil.
Para entender isso de forma simples, pense na volatilidade como o “batimento cardíaco” de um ativo. Quanto mais acelerado, mais ele sobe e desce em pouco tempo. O Bitcoin sempre teve um coração acelerado. O ouro, não. Mas neste ano, o ouro apresentou um pico de batimentos que superou o do Bitcoin.
Isso ficou evidente após o metal sair da região de US$ 4.000 para cerca de US$ 5.600, uma alta próxima de 40%, e depois despencar para US$ 4.400 em apenas três dias. Esse movimento rápido e intenso não combina com a imagem clássica de estabilidade que sustenta sua reputação como reserva suprema de valor.
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Enquanto isso, o Bitcoin passou pelo movimento oposto. Desde a máxima de US$126 mil em outubro até a mínima próxima de US$60 mil no início de fevereiro, o ativo sofreu uma correção profunda. Porém, ao mesmo tempo, sua volatilidade estrutural vem diminuindo ao longo dos ciclos.
Diferentemente do ouro, cuja volatilidade recente está acima da média da última década, o aumento no Bitcoin parece ter sido muito mais um exagero concentrado no lado vendedor. É como se um ativo estivesse ficando mais maduro ao longo do tempo, enquanto o outro começasse a mostrar sinais de euforia tardia.
Isso muda algo na tese de reserva de valor? Talvez mais do que aparenta. Se a crítica central ao Bitcoin era a volatilidade, e agora o principal ativo defensivo do mercado está oscilando tanto ou mais, essa narrativa perde força.
E quando olhamos os fundamentos, o Bitcoin continua apresentando atributos fortes frente ao ouro: inflação menor, emissão futura totalmente conhecida, oferta limitada a 21 milhões, facilidade de transporte global e independência de governos. O ouro segue sendo relevante, mas não possui previsibilidade absoluta de oferta nem a mesma eficiência no ambiente digital.
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O que o JPMorgan levanta é justamente essa reflexão. Se o ouro está negociando com volatilidade elevada após uma forte valorização, ele pode estar cobrando um prêmio alto demais por sua reputação. Já o Bitcoin, depois de uma queda significativa e com fundamentos intactos, pode estar oferecendo uma assimetria mais interessante no longo prazo. É como se o ativo tradicional estivesse no topo da confiança do mercado, enquanto o ativo jovem, criado justamente por desconfiança nas estruturas tradicionais, estivesse temporariamente subavaliado.
No fim, a pergunta que fica é provocativa. Se o ouro pode ser volátil e o Bitcoin pode estar se tornando estruturalmente menos volátil ao longo dos ciclos, qual deles hoje carrega o melhor equilíbrio entre fundamento e preço?
A crítica histórica ao Bitcoin começa a perder força exatamente no momento em que seus atributos de escassez e previsibilidade ficam mais evidentes. E talvez estejamos diante de um momento em que a reserva de valor mais nova esteja oferecendo mais valor relativo do que a mais antiga.
Sobre o autor
Pedro Fontes é graduando em economia na UFRJ e finalista do CFA Challenge Brasil. Começou sua jornada no mercado cripto em 2021, trabalhando na área de tokenização de carteiras de investimento. Atualmente integra a equipe de analistas de criptoativos do MB.