“Iron Maiden: Burning Ambition” cobre a trajetória da banda desde o começo, antes até de você fazer parte. Como era a cena do metal na época e que paralelo você traça com a indústria musical hoje?
Não existe comparação com a indústria musical atual. A indústria hoje está uma bagunça, fragmentada, eu vejo todo mundo preocupado em manter o emprego. Eu converso com gente das gravadoras e tudo que eles pensam é que serão substituídos por algum assistente feito por inteligência artificial, e eles provavelmente não estão errados! Tudo isso é catastrófico para a música, música de verdade. Música ao vivo que não é feita por computador, música que não precisa de faixas pré gravadas para ser executada ao vivo. Esse é o lado negativo.
Mas existe o outro lado da moeda?
Claro, o lado positivo é que o ser humano é imprevisível. É por isso que somos humanos e sempre vamos achar uma maneira de f***** o sistema. Então eu não sei onde vamos parar em termos musicais, mas tenho certeza que não será nenhum lugar apontado por alguma IA. Humanos seguirão sendo humanos.
Como o Iron Maiden se encaixa nesse futuro?
Bom, estamos numa posição privilegiada de reunir plateias enormes e ainda tocar tudo ao vivo. Então não somos exatamente o exemplo para julgar o estado da indústria musical. A pressão está nas bandas menores, que são forçadas a fazer tudo sob o prisma das redes sociais e da IA. Vai ser curioso ver como tudo pode se desenrolar. No começo do Maiden tudo era ao vivo, tudo acontecia no boca a boca. Não existia internet, ninguém estava online. A turma chapava num show, ligava para os amigos e na semana seguinte tinha o dobro de gente — ou não, depende de quem conta a história. (risos). Nesse contexto, o Maiden foi um fenômeno com uma base totalmente popular. Eles tinham seguidores, literalmente fãs que os seguiam por cada show.
Foi nessa época que você conheceu a banda?
Eu cantava em outro grupo, o Samson, havia todo um circuito de bandas que basicamente tocava nos mesmos clubes. Então às vezes tocávamos sozinhos, às vezes a gente dividia o palco com duas ou três outras bandas. Não era raro o Samson se apresentar com o Iron Maiden. Daí teve um show que a gente ia tocar por último, o Maiden entraria como convidados especiais no meio da noite e foi a oportunidade perfeita para vê-los ao vivo. Então eu encostei num canto, vi o show e fiquei de queixo caído. Eles eram incríveis, e tudo que eu pensava era por que não estou cantando com eles? (risos) Um ano e meio depois, eu estava.
Você já esteve no Brasil dezenas de vezes desde que o Iron Maiden se apresentou no primeiro Rock in Rio em 1985. Como você define sua relação com o Brasil?
O Brasil sempre é uma viagem de grandes descobertas, até porque eu conheço, sei lá, um quarto do que é o Brasil, acho que nem isso! Quando fomos pela primeira vez ao Rock in Rio, isso no século passado, ninguém sabia muita coisa sobre o Brasil, nem mesmo as bandas mais famosas. Daí voltamos para a Inglaterra espalhando a palavra sobre como o Brasil era esse lugar incrível, estávamos mesmo encantados com o público. E a turma dizia, “ah, tá, Brasil, eles meio que não sabem nada sobre música e seu dinheiro não vale nada, então nem vale a pena perder tempo.” A gente comprava a briga, porque as pessoas no Brasil eram mesmo espetaculares. Muitas bandas que se apresentaram no Rock in Rio não queriam voltar, mas a gente fez questão porque os fãs faziam tudo valer a pena.