Por Ana Claudia Paixao – via MiscelAna
Eu achava que conhecia Robin Hood. Na verdade, talvez conhecesse sobretudo a raposa da Disney.
E isso diz muito sobre o impacto de A Morte de Robin Hood, que finalmente chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 13 de agosto. Depois de mais de um século de adaptações, estamos acostumados ao arqueiro atlético, simpático, romântico, cercado pelos amigos de Sherwood e pronto para roubar dos ricos e ajudar os pobres. Michael Sarnoski faz exatamente o contrário: desmonta esse herói.
Aqui, Robin Hood é um homem velho, ferido e marcado por uma vida de violência. Hugh Jackman está excelente nesse registro que domina tão bem, o de homens tensos, amargurados e atravessados pelo arrependimento. É impossível não lembrar de Logan, mas pensei também em A Fonte da Vida, de Darren Aronofsky. Jackman sabe carregar a dor no corpo, no olhar e até no silêncio.
Jodie Comer, como Brigid, trabalha num registro muito mais contido do que costumamos vê-la. Murray Bartlett está quase irreconhecível como Guy of Gisborne, assim como Bill Skarsgård como Little John. Aliás, quase todo mundo parece irreconhecível porque o filme é escuro, às vezes, é escuro até demais.
Sarnoski se aproxima das antigas baladas inglesas de Robin Hood, nas quais o personagem era muito menos moralmente puro do que Hollywood nos ensinou. Esse Robin causou sofrimento, deixou vítimas pelo caminho e chega ao fim da vida precisando lidar com aquilo que fez. É aí que o filme encontra sua ideia mais bonita porque a redenção não significa descobrir que Robin sempre foi bom, mas sim admitir que não foi.
Seu encontro com Brigid, Guy e uma nova geração marcada pela violência que ele ajudou a criar transforma a história numa reflexão sobre culpa, vingança e a possibilidade de interromper um ciclo antes que ele continue. Nem tudo funciona para mim. O filme é lento, contemplativo demais em alguns momentos, e sua fotografia escura por vezes dificulta até reconhecer quem está em cena. A trilha é belíssima, embora algumas canções folk criem certa distância. Ainda assim, vale o estranhamento.
A Morte de Robin Hood não quer devolver o herói que conhecemos: quer descobrir o homem quando a lenda já não consegue protegê-lo. E talvez seja justamente aí que Robin Hood finalmente consiga fazer algo verdadeiramente heroico.