Não é errado, portanto, afirmar que “Michael” deu ao fã, essa figura que muitas vezes deixa o senso crítico em casa, exatamente o que ele esperava: uma versão resumida da história exemplar do ícone do pop, rearranjando alguns fatos e ignorando outros por completo. O filme de Fuqua resvala nos motivos que o fizeram encarar um tratamento para clarear sua pele (o diálogo explicativo dura segundos), trata sua obsessão por cirurgias plásticas como capricho (ele faz rinoplastia, mas não antes de o médico dizer que ele é “um belo rapaz” antes de qualquer interferência), justifica a luva prateada e o vício por analgésicos, e repete à exaustão sua admiração por “Peter Pan”, obra que viria definir sua vida adulta.
São os dilemas sob os quais o filme se apoia para desenhar sua narrativa: a relação conflituosa entre Jackson e seu pai, do início de sua careira ainda uma criança ao lado dos irmãos no grupo Jackson 5 até o encerramento da Victory Tour, já na esteira dos sucessos solo de “Off the Wall” e “Thriller”, que selou o fim de sua relação profissional com o patriarca da família. Colman Domingo busca injetar personalidade no papel e termina como único elemento memorável do filme – além, claro, do próprio MJ, mesmo que Jaafar, no geral em bela recriação visual do tio, às vezes pareça um boneco de cera envernizado. Todos os outros personagens, sem exceção, mal registram.

Não é, por óbvio, a primeira vez que Hollywood converte a biografia de um astro da música em filme. Em 1954, “Música e Lágrimas” trouxe James Stewart como o lendário Glenn Miller, morto uma década antes. Desde então, este casamento entre as duas artes trouxe obras, sim, celebratórias (de “La Bamba” ao recente “Elvis”, passando por “Amadeus”, “O Destino Mudou Sua Vida” e “Straight Outta Compton”), mas também produções que iam além da mera coleção de greatest hist musicais e pessoais.
O melhor deles, “Não Estou Lá”, mostrou o diretor Todd Haynes explorando não a vida de Bob Dylan, mas percepção da influência do astro folk para o próprio espírito dos Estados Unidos – Dylan também inspirou o ótimo “Um Completo Desconhecido”, com Timothée Chalamet. Já “8 Mile” biografou a trajetória do rapper Eminem, com o próprio interpretando uma versão fictícia de si mesmo. O surpreendente “Better Man” mergulhou fundo, sem se esquivar de qualquer polêmica, na vida e carreira do ídolo pop Robbie Williams, retratado como um chimpanzé.